Gênesis 32.26-29
“Então o homem disse:
- Solte-me, pois já está amanhecendo.
- Não solto enquanto o senhor não me abençoar – respondeu Jacó.
Aí o homem perguntou:
- Como você se chama?
- Jacó – respondeu ele.
Então o homem disse:
- O SEU NOME NÃO SERÁ MAIS JACÓ. Você lutou com Deus e com os homens e venceu;
POR ISSO O SEU NOME SERÁ ISRAEL.
- Agora diga-me o seu nome – pediu Jacó.
- O homem respondeu:
- Por que você quer saber o meu nome?
E ali ele abençoou Jacó.”
(Grifo meu)
Na verdade, Deus não abençoou Jacó. Você percebeu? Antes de abençoá-lo, Deus mudou o nome dele para Israel; portanto, Deus abençoou Israel ('pai de multidões', ‘príncipe de Deus’) e não Jacó (‘enganador’, ‘manipulador’, ‘suplantador: aquele que sempre leva vantagem em tudo’).
Os “jacós” serão abençoados, é verdade. A Bíblia diz que Deus faz o sol nascer sobre justos e injustos (Mateus 5.45). Ela também diz que é Deus quem dá a todos a respiração, a vida e tudo mais (Atos 17.25).
Mas as bênçãos especiais que Deus quer dar aos seus filhos não podem ser recebidas pelos “jacós” (você percebeu a ênfase em recebidas?); somente filhos com a natureza de um 'israel' podem recebê-las.
Jacó foi uma pessoa que sempre desejou ardentemente as bênçãos de Deus. Logo cedo, vêmo-lo buscando tais bênçãos. Mas havia três problemas básicos com Jacó no que concerne a ser abençoado: primeiro, as bênçãos pelas quais ele tão determinadamente ansiava e lutava não eram as bênçãos as mesmas bênçãos que Deus queria lhe dar; segundo, ele queria obter bênçãos a qualquer custo, mesmo que isso significasse obtê-las por meio do pecado; terceiro, ele queria receber as bênçãos de Deus sem que isso jamais significasse qualquer mudança na sua personalidade, planos e destino.
Amados, isso nos leva a apresentar-lhes três proposições:
1º. AS BÊNÇÃOS PELAS QUAIS TÃO DETERMINADAMENTE ANSIAMOS E LUTAMOS PODEM NÃO SER AS MESMAS BÊNÇÃOS QUE O PAI TEM PLANEJADO PARA NÓS.
Quantas vezes sofremos por, conscientemente, rejeitarmos esta verdade! Quantas vezes nós próprios determinamos - sem a aprovação do Pai, é claro -, aquelas bênçãos que farão de nós pessoas felizes e bem-sucedidas! E, então, como Jacó, mostramo-nos incansavelmente dedicados e determinados por um bom tempo. Sucesso a toda prova! O problema é que todos os “jacós”, sem exceção, sempre serão levados (ou eu deveria dizer “acuados”?) por Deus um dia ao mesmo lugar: o ribeiro de Jaboque, lugar onde todo “jacó” deve morrer. E, então, ali, diante do vazio das nossas grandes realizações e riquezas acumuladas ao longo dos anos, seremos dominados por um sentimento de frustração, confusão e desespero, e, quem sabe, em certos momentos, até pensaremos que morrer é melhor do que viver. E tudo isso porque um dia viramos as costas para as bênçãos que o Pai quis oferecer, e determinamos aquilo que seria bom para nós.
A história de Jacó tem se repetido na vida de milhares de filhos de Deus hoje, infelizmente. Cristãos, por exemplo, que estão determinando o sucesso material, profissional e pessoal como o alvo maior de suas vidas, em detrimento do seu relacionamento com Deus. Lá na frente - no ribeiro de Jaboque - o quadro a ser assistido é o de pessoas extremamente bem-sucedidas de acordo com o padrão deste mundo, mas, ao mesmo tempo, extremamente pobres no que tange ao conhecimento e à intimidade com Deus. Lá na frente, todo dinheiro, toda fama, todo conhecimento e realizações não serão suficientes para compensar os prejuízos e perdas causados ao longo do caminho. E, então, o “jacó” terá que morrer...
Amado, eu preciso perguntar: as bênçãos que você está usufruindo neste momento da sua história são as mesmas bênçãos com as quais o Pai sempre sonhou para você? Você está certo disso? Ou está tentando provar para Deus que pode ser feliz à parte daquilo que Ele lhe tem oferecido? Ignorar as bênçãos do Pai para a sua vida, amado, significa plantar as sementes da frustração, do vazio e do desespero.
2º. ‘JACÓS’ SÃO AQUELES FILHOS DE DEUS QUE QUEREM OBTER BENÇÃOS
A QUALQUER CUSTO, MESMO QUE ISSO SIGNIFIQUE OBTÊ-LAS POR MEIO DO ENGANO, TRAPAÇA E MANIPULAÇÃO, ISTO É, POR MEIO DO PECADO.
É interessante observar como a história de Jacó foi marcada pelo engano, trapaça e manipulação. Lamentavelmente, Jacó contaminou a sua família com estas práticas perniciosas. Ele foi o portal através do qual elas passaram a fazer parte da história dos seus filhos.
Em Gênesis 27.1-29, ele e a mãe, Rebeca, enganam o pai, Isaque.
Em Gênesis 29.15-30, ele é enganado pelo tio-sogro, Labão.
Em Gênesis 31.22-35, sua esposa Raquel engana o próprio pai, Labão.
Em Gênesis 34.13-31, os seus filhos enganam os habitantes de Hamor.
Em Gênesis 35.22, o seu filho Rúben o engana e tem relações com uma de suas mulheres, Bila.
Em Gênesis 37.12-36, ele é enganado pelos próprios filhos que vendem o irmão José como escravo.
Em Gênesis 38.1-26, o seu filho Judá engana a nora, Tamar, e, em retorno, é enganado por ela.
É muito provável que Jacó tivesse desistido do seu intuito de construir uma vida abençoada tendo como fundamento o engano, a trapaça e a manipulação, caso pudesse antever todos estes acontecimentos. Quanto sofrimento ele teria poupado para si mesmo e para a sua descendência!
Mas o fato é que Jacó estava determinado a construir uma vida de sucesso a qualquer custo! Os meios não lhe importavam contanto que ele chegasse lá na frente próspero, rico e saudável. Deus ainda tentou, por várias vezes, dissuadi-lo deste projeto de vida, e mudar o seu modo de pensar (Gênesis 28.6-22), mas Jacó não era daqueles que se deixam convencer facilmente... nem mesmo pelo próprio Deus! Ele havia feito uma promessa de obediência e fidelidade a Deus, é verdade; mas isso era algo com o qual ele só se preocuparia mais tarde na vida (20 anos depois). No momento, ele continuaria enganando, trapaceando e manipulando até chegar ao topo da prosperidade e do sucesso (pelo menos, da maneira como ele concebia estas coisas). O “acerto de contas com Deus”, digamos assim, ficaria para um futuro bem, bem, bem distante (isso é o que ele pensava).
Quantos filhos de Deus há que revelam em suas escolhas, pensamentos e atitudes a mesma filosofia de vida de Jacó! Quantos filhos de Deus há que, à semelhança de Jacó, também estão aproveitando as bênçãos que Deus lhes deu para enganar, trapacear e manipular, no intuito de galgar posições mais altas e vantajosas neste mundo, ao invés de, humilde e agradecidamente, servir a Deus com sinceridade e integridade. Quantas vezes não ouvimos de filhos de Deus que, tendo recebido do Pai uma posição estrategicamente próspera, permitiram-se contaminar pelos valores e práticas dos grupos de pessoas aos quais deveriam abençoar com uma vida de temor e intimidade com Deus!
Primeiramente, Jacó errou em definir corretamente o alvo da sua vida: as bênçãos que queria receber não eram as mesmas que o Pai lhe queria dar; depois, ele errou os meios através dos quais ele iria atingir este alvo: a sua determinação era a de usar as armas da carne, a saber, o engano, a trapaça e a manipulação. Por fim, ele também falhou em determinar o custo da sua empreitada:
Um outro aspecto da grande luta de Jacó com o anjo do Senhor, creio, foi que Jacó queria ser abençoado e continuar sendo Jacó. O que Jacó parecia não compreender é que quando Deus nos faz depositários das suas bênçãos, mudanças vão acontecer, necessariamente. Como pode alguém ser tocado por Deus de maneira tão especial e continuar sendo a mesma pessoa? (Não é de se lastimar que o toque das mãos do Senhor nos tenha curado da lepra da carne, mas não tenha nos livrado da lepra de um espírito orgulhoso e mal agradecido?) Como continuar praticando os mesmos atos de engano, trapaça e manipulação após um encontro real com o próprio Deus? Jacó parece não ter compreendido que os maiores benefícios das bênçãos de Deus na sua vida não se concretizariam em riquezas materiais e externas, mas em riquezas espirituais e internas – e eternas, ou seja, os maiores benefícios das bênçãos de Deus na sua vida se concretizariam justamente no fato de que ele não mais seria Jacó, mas Israel.
Jaboque não é apenas o lugar onde todo ‘jacó’ deve morrer como também o lugar onde todo ‘jacó’ resiste a qualquer mudança e luta para não morrer. Tentar ludibriar o próprio Deus, arrancar Suas bênçãos a força e escapar sem qualquer mudança não será descartado.
Concluo dizendo que Deus abençoa os ‘jacós’, sim, como Ele abençoa qualquer uma de suas criaturas. Ele é um Deus amoroso e misericordioso. Mas o seu grande deleite está em abençoar aqueles que têm o espírito de um ‘israel’. Ele não ‘desperdiça’, por assim dizer, as suas bênçãos especiais com os ‘jacós’; elas lhe seriam como ‘pérolas lançadas aos porcos’. (Mateus 7.6)
Que a nossa atitude seja a de arrependimento e confissão sinceros, e que a nossa oração seja algo como: “Pai, conduza-me de volta ao ribeiro de Jaboque, lugar de morte diária do meu ‘jacó’ e de nascimento, fortalecimento, crescimento do meu ‘israel’”.
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